Por Caroline Borja
Entre os infortúnios da minha infância, lembro com destaque dos incômodos enjôos que fatalmente me acometiam em deslocamentos terrestres (em automóveis ou ônibus) e marítimos. Com o início de cada viagem (ou mesmo trajeto urbano), era súbito e precoce o mal-estar e a palidez que, num alerta aos acompanhantes, tomava-me a face. Apavorante era o instante que precedia o alcance das pronunciadas curvas da rodovia Anchieta, no retorno para a Baixada Santista, e dramático o agravamento das náuseas que judiavam e culminavam com os inevitáveis, abundantes e desconfortáveis vômitos. Mais importante do que garrafas d’água, frutas, bolachas ou brinquedos – que, em geral, fazem parte das viagens dos pequenos – era o meu saquinho plástico, apetrecho primário, básico e indispensável.
Um estudo preliminar publicado na Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, demonstrou a eficácia da Reabilitação Vestibular (RV) em crianças. A RV é o tratamento que visa o treinamento do sistema vestibular (das estruturas do vestíbulo). Na discussão do referido estudo, os autores relatam que “uma das queixas mais freqüentes nessas crianças vestibulopatas* é a cinetose, e portanto, a limitação em participar de brincadeiras que envolvam o movimento, principalmente a rotação, elemento básico nos brinquedos de parques de diversões. Além disso, o movimento em transportes coletivos e viagens de carro em estradas longas e sinuosas é outro fator desencadeante de enjôos e vômitos. Tal fato é freqüentemente relatado pela mãe, que fica assustada com a palidez que a criança apresenta e sua apatia, imaginando tratar-se de um desmaio. As crianças, por outro lado, sentem-se envergonhadas por vomitar durante a crise, perto de pessoas estranhas que as ficam observando”.
De acordo com a Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), um dos métodos da RV inclui a “utilização de exercícios físicos repetitivos como movimento de cabeça e olhos, movimento de tronco, brincadeiras com bola, andar com e sem movimento de cabeça e olhos, etc… que são ensinados em consulta e praticados em casa, repetidas vezes, de forma disciplinada”.
Os autores do mencionado estudo preliminar “apontam a Reabilitação Vestibular como uma opção válida no tratamento das vestibulopatias* na infância, uma vez que não houve casos não responsivos ao tratamento”.
Segundo um artigo publicado na revista eletrônica “Arquivos Internacionais de Otorrinolaringologia” no ano passado, “a RV, como medida terapêutica única é indicada com sucesso nos casos de cinetose”. Os autores afirmam ainda que “a RV previne patologias, pois a disfunção vestibular costuma comprometer seriamente a habilidade de comunicação, o comportamento psicológico e o desenvolvimento escolar”.
Ao suspeitar de cinetose, não se automedique; procure orientação médica.
*O termo vestibulopata refere-se a indivíduos que apresentam algum tipo de vestibulopatia, isto é, doença do vestíbulo.
Referências:
Bittar RSM, Pedalini MEB, Medeiros ÍRT et al. Vestibular rehabilitation in children: preliminary study. Rev. Bras. Otorrinolaringol., July/Aug. 2002, vol.68, no.4, p.496-499.
Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da USP (FMUSP). http://www.hcnet.usp.br/otorrino/reab.htm
Mantello EK, André APR, Colafêmina JF. Reabilitação Vestibular no Tratamento da Cinetose. Arquivos Internacionais de Otorrinolaringologia, 2005, vol. 9, ed. 2.
Schmäl F, Stoll W. Neuronal Mechanisms and Treatment of Motion Sickness. Donnerer J (ed): Antiemetic Therapy.Basel, Karger, 2003, pp 98-112.
Intrigante e misteriosa era a alegria das outras crianças nos rodopiantes e vertiginosos brinquedos dos modernos parques de diversões. Mesmo fora desses brinquedos, que incrível habilidade era essa de girar e girar, copiosa e violentamente, sem acabar sobre um leito em vertigens e ânsias de vômitos?
E com freqüência, sob olhar ansioso de minha mãe, lá estava eu frente ao médico tentando verbalmente expressar as sensações que me comprometiam a infância. E análises precoces sugeriam labirintite; exames de sangue não revelavam mais do que ocasionais anemias; eletroencefalografias buscavam evidências de distúrbios neurológicos, como disritmia. Piores mesmo eram as leigas, equivocadas e inconseqüentes diagnoses: “é psicológico”.
Mesmo sem explicações coerentes e diagnósticos definidos, o dimenidrinato (Dramin) tornou-se importante aliado, embora sua eficácia fosse, por vezes, incompleta – quando não nula. E, embora alguém tivesse mencionado que meu tormento se encerraria com o amadurecimento – o que, de fato, ocorre em muitos casos –, já adulta eu ainda amargamente sofreria com as inúmeras viagens rodoviárias de Santos para Campinas, na época de mestrado e doutoramento na UNICAMP. E eram frustrantes as tentativas de aproveitar aquelas três horas de percurso (quando não havia congestionamento, sobretudo aquele típico engarrafamento da temporada na Baixada, que chegava a dobrar o período da trajetória) para leitura. Qualquer intenção de fixar os olhos em algum objeto que eu portasse nas mãos desencadeava ou intensificava o tal distúrbio.
Nas viagens aéreas, eu vim a descobrir o meio de transporte que tornaria meu martírio ainda mais intenso e penoso. E, até hoje, uma hora antes do embarque, o uso do dimenidrinato faz-se necessário. Não é à toa que as aeronaves dispõem desse medicamento que tanto alivia as vítimas de cinetose.
O que? CINETOSE. A cinetose, também conhecida como enjôo dos movimentos, indiscriminadamente, afeta viajantes terrestres, marítimos e aéreos e até usuários de elevadores. Tontura, enjôo, apatia, sonolência, palidez, sudorese fria e vômitos são alguns dos sintomas que caracterizam o distúrbio.
É verdade que a “minha cinetose” espontaneamente regrediu, possibilitando-me hoje viagens terrestres e marítimas sem prévio uso do dimenidrinato – as viagens aéreas ainda não o dispensam. Porém – seja em carro, ônibus ou avião –, para mim, nada de ler ou conversar (virando a cabeça para o lado ou para trás) durante as viagens, por mais curtas que elas sejam. Isso ocorre porque, ao fixar a cabeça em algo (ou alguém), os olhos enviam ao cérebro a mensagem de inércia (repouso), enquanto o vestíbulo percebe que estamos em movimento (o deslocamento do carro, do ônibus, do barco, do avião…). Você está parado, contudo está em movimento. Essa divergência de informações – com a qual a maioria das pessoas consegue lidar sem problemas – desencadeia a cinetose nas pessoas suceptíveis.
No vestíbulo (que fica no ouvido interno, localizado no labirinto) existem estruturas sensoriais, que permitem que mantenhamos o equilíbrio tanto quando estamos parados ou em movimento.
Publicado na coluna Ciência sem Mistérios (www.tudopraia.com.br)

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